segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Motivos pra desligar a tv e ler...


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Imagem cedida pela página: Eu amo ler

A história mais longa do mundo




Era uma vez um rei que adorava ouvir histórias, porém achava as histórias curtas demais.
Por mais que o contador de histórias do reino se esforçasse, o rei continuava insatisfeito.
Até que um dia, furioso, mandou o seu pobre contador para a prisão e lançou um desafio: daria quinhentas moedas de ouro a quem lhe contasse uma história tão comprida, tão comprida, que o fizesse se cansar. Mas, ai de quem não conseguisse.
Em vez de quinhentas moedas, ganharia quinhentas chibatadas.

Várias pessoas se candidataram a contar histórias para o rei.
Alguns passaram horas, outros chegaram a atravessar dias contando as suas histórias e sempre que acabavam o rei dizia o seguinte:
-Mas já acabaste? Não me cansou, levarás as merecidas quinhentas chibatadas
Até que veio um outro senhor e disse assim:
- Eu vou ganhar a questão.
Chegou ao pé do rei e disse:
-Venho para contar a minha história.
-Então começa-a já, disse o rei.
"Era uma vez formiga que entrou num celeiro onde havia muito grão, muito grão, muito grão, muito grão. Ela veio, levou um grãozinho para o outro lado e voltou."
"Pegou noutro grãozinho e foi-se embora, trouxe outro grãozinho e foi-se embora, trouxe outro grãozinho, outro grãozinho e foi-se embora …"
E o rei começou a dizer:
-Então, mas nunca mais…?
-Não. Enquanto não saírem os grãos todos eu não posso continuar a história.
E assim ele ganhou metade do reino, porque aborreceu o rei com a história
que ia contar.

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Ilustrador: Tatiana Paiva
Formato: 24 x 25
Número de páginas: 28
Acabamento: Lombada canoa
ISBN: 9788574122748

Sabendo mais sobre o livro:
Veja o vídeo feito pela editora Brinque Book
Imagem disponível em: brinquebook.com

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

INDICANDO OBRAS - A BOLSA AMARELA





Este livro é uma das grandes obras de Lygia Bojunga Nunes , que remete o leitor de forma simples e criativa   ao mundo onde tudo se torna possível, principalmente  reviver a infância. Foi publicado em 1976 e atualmente continua fascinado os seus leitores.Conheça  toda a obra: A BOLSA AMARELA

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Assista a história.

Barba Azul
(Barbe-bleue, 1901)
• Direção: Georges Méliès
• Roteiro: Georges MélièsCharles Perrault (conto de fadas)
• Gênero: Drama/Policial
• Origem: França
• Duração: 9 minutos
• Tipo: Curta-metragem



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A história do Barba Azul.


Este conto inicialmente escrito por Charles Perraut, sofreu alterações ao longo da história como qualquer outro tipo estória contada com o passada das gerações, por isso se torna possível encontrar várias versões com suas características próprias, apresento-lhes a seguinte: 

Era uma vez...
Um homem muito rico e poderoso que vivia sozinho num grande palácio. Chamavam-lhe Barba Azul porque tinha uma longa e estranha barba azul-escura. Por causa disso, o seu aspecto era sombrio e todos tinham medo dele.
Um dia, o Barba Azul foi visitar uma senhora que vivia próximo do seu palácio e pediu em casamento a sua filha mais nova, que era uma jovem muito bonita. A senhora era viúva, e como não tinha muito dinheiro, o casamento da sua filha com aquele homem tão rico pareceu-lhe muito vantajoso. A filha não gostava do Barba Azul, porque tinha um bocadinho de medo dele; mas obedecia sempre à sua mãe e acabou por aceitar. Pouco tempo depois foi celebrado o casamento do Barba Azul com a jovem.
 Logo a seguir ao casamento, o Barba Azul levou a sua jovem esposa para o palácio. Entregou-lhe um grande molho de chaves e disse-lhe:
-  Estas são as chaves de todas as divisões da casa; podes entrar em todas, menos na que se abre com a chave de ouro. Ao dizer isto, o Barba Azul mostrou-lhe uma chave mais pequena do que as outras.
-  Lembra-te bem disto - insistiu com uma cara muito séria. Estás terminantemente proibida de entrar na divisão que se abre com esta chave.
No dia seguinte, o Barba Azul foi fazer uma viagem, e a irmã da rapariga foi visitá-la com várias amigas.
A jovem recém-casada foi mostrando todas as divisões às suas amigas, que não podiam acreditar no luxo e na riqueza que tinham diante dos seus olhos.
Ao anoitecer, as amigas foram-se embora mas a irmã da rapariga ficou. A jovem esposa só pensava na chave de ouro que o seu marido a tinha proibido de usar. Tinha muita curiosidade em abrir a porta que havia ao fundo de um corredor e ver o que é que havia do outro lado.
Finalmente, a sua curiosidade foi mais forte do que a sua prudência e abriu a porta proibida.
Ficou horrorizada ao ver que, naquele quarto, pequeno e escuro, havia várias mulheres mortas!
Com o susto, a jovem deixou cair a chave de ouro, que se sujou de sangue. As mulheres que estavam naquele quarto eram as anteriores esposas do Barba Azul, e como tinham sido apunhaladas, o chão estava cheio de sangue. A jovem tentou limpar a mancha vermelha da chave de todas as maneiras possíveis, mas foi inútil. Por mais que a esfregasse e voltasse a esfregar, o sangue não desaparecia. E pensou que se o Barba Azul percebesse o que tinha acontecido, ela teria a mesma sorte das outras mulheres.
No dia seguinte, O Barba Azul regressou e a primeira coisa que fez foi pedir as chaves à sua esposa, que não se atreveu a dar-lhe a chave de ouro. Mas o Barba Azul percebeu que faltava ali a chave proibida, e disse-lhe que se preparasse para morrer.
A pobre rapariga correu à procura da sua irmã mais velha, que ainda estava no palácio, e contou-lhe o que tinha acontecido.
- O meu marido foi buscar um punhal para me matar, como fez às suas anteriores esposas! - gritou a jovem. O que é que posso fazer?
- Os nossos irmãos disseram que vinham visitar-nos hoje - disse a irmã mais velha. Tenta entreter o Barba Azul, dá uma desculpa qualquer, para ver se eles entretanto chegam.
Os dois irmãos das jovens eram fortes e corajosos; só eles as podiam salvar.
A irmã mais velha subiu à torre do palácio, para ver os seus irmãos chegarem. Entretanto, o Barba Azul apareceu com um grande punhal, disposto a matar a sua esposa.
A jovem pediu-lhe que lhe desse tempo para rezar as suas orações, e o Barba Azul concedeu-lhe uns minutos. Enquanto rezava junto às escadas da torre, gritou:
- Minha irmã! Consegues ver alguma coisa?
- Só um rebanho de ovelhas ao longe - respondeu a sua irmã.
E o Barba Azul, que tinha ouvido a sua esposa gritar, correu até onde ela estava para a matar.
Nesse preciso momento a irmã mais velha gritou:
- Vejo dois cavaleiros que se aproximam a galope! Mas o Barba Azul já estava junto da sua aterrorizada esposa, disposto a matá-la com o seu punhal, como fizera às anteriores.
Quando parecia que nada podia salvar a infeliz jovem, ouviram-se umas fortes pancadas na porta.
Eram os dois irmãos, que ao verem que a sua irmã mais velha lhes fazia gestos desesperados de dentro da torre, já desconfiavam de que alguma coisa se passava.
A irmã mais velha tinha descido para lhes abrir a porta, e eles entraram sem demora surpreendendo o Barba Azul no momento exacto em que ele ia apunhalar a sua indefesa esposa. Os dois irmãos atiraram-se a ele e mataram-no com as suas espadas.
Com o Barba Azul morto, o seu palácio e todas as suas riquezas passaram a ser propriedade da sua esposa, que desde então viveu feliz com a sua mãe e os seus irmãos, mas nunca se esqueceu do medo por que passou.
Vitória, vitória, acabou-se a história!
Livro "Os teus contos clássicos", Rita Bruno, RBA Editores

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

ISTO É UM LIVRO!!!


Hans Christian Andersen e A Vela de Sebo

Biografia



Hans Christian Andersen era filho de um sapateiro e sua família morava num único quarto. Apesar das dificuldades, ele aprendeu a ler desde muito cedo e adorava ouvir histórias.


A infância pobre deu a Andersen a chance de conhecer os contrastes de sua sociedade, o que influenciou bastante as histórias infantis e adultas que viria a escrever. Em 1816, seu pai morreu e ele, com apenas 11 anos, precisou abandonar a escola, mas já demonstrava aptidão para o teatro e a literatura.



Aos 14 anos, Andersen foi para Copenhague, onde conheceu o diretor do Teatro Real, Jonas Collin. Andersen trabalhou como ator e bailarino, além de escrever algumas peças. Em 1828, entrou na Universidade de Copenhague e já publicava diversos livros, mas só alcançou o reconhecimento internacional em 1835, quando lançou o romance "O Improvisador".

Apesar de ter escrito romances adultos, livros de poesia e relatos de viagens, foram os contos infantis que tornaram Hans Christian Andersen famoso. Até então, eram raros livros voltados especificamente para crianças.

Em suas histórias Andersen buscava sempre passar padrões de comportamento que deveriam ser adotados pela sociedade, mostrando inclusive os confrontos entre poderosos e desprotegidos, fortes e fracos. Ele buscava demonstrar que todos os homens deveriam ter direitos iguais.

Entre 1835 e 1842, Andersen lançou seis volumes de "Contos" para crianças. E continuou escrevendo contos infantis até 1872, chegando à marca de 156 histórias. No final de 1872, ficou muito doente e permaneceu com a saúde abalada até 4 de agosto de 1875, quando faleceu, em Copenhague.

Graças à sua contribuição para a literatura para a infância e adolescência, a data de seu nascimento, 2 de abril, é hoje o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil. Além disso, o mais importante prêmio internacional do gênero leva seu nome.

Anualmente, a International Board on Books for Young People (IBBY) oferece a Medalha Hans Christian Andersen para os maiores nomes da literatura infanto-juvenil. A primeira representante brasileira a ganhá-la foi Lygia Bojunga, em 1982.

Entre os títulos mais divulgados da obra de Andersen encontram-se: "O patinho feio", "O soldadinho de chumbo", "A roupa nova do Imperador", "A pequena sereia" e "A Menina dos Fósforos". São textos que fazem parte do imaginário da maioria das crianças do mundo desde sua publicação até a atualidade, tendo sido adaptados para o cinema, o teatro, a televisão, o desenho animado, etc.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/hans-christian-andersen.jhtm


"A Vela de Sebo", o primeiro conto de Andersen

Esta foi a manchete publicada no jornal  Folha de São Paulo, que através do historiador dinamarquês Esben Brage, e especialistas na obra de Hans Christian Andersen (1805-75),pode noticiar e apresentar o primeiro conto de Andersen, que é intitulado "A Vela de Sebo". 

HANS CHRISTIAN ANDERSEN
tradução HELOISA JAHN
*
Para a senhora Bunkeflod
com a dedicação de seu

H. C. Andersen


Aquilo chiava e fervia enquanto o fogo dançava debaixo do caldeirão; era o berço da vela de sebo --e do interior do berço cálido surgiu a vela perfeita, elegante, brilhando branca e esguia. A julgar por seu aspecto, todos os que a contemplavam se convenciam de que ali estava a promessa de um futuro feliz e radioso --uma promessa que, como todos viam muito bem, ela não deixaria de cumprir.
A ovelha --uma linda ovelhinha-- era a mãe da vela, enquanto o caldeirão onde se derretia o sebo era seu pai. Da mãe ela herdara o admirável corpo branco e uma certa noção da vida; mas do pai recebera o desejo de ter uma chama ardente, capaz de penetrar medula e ossos --e de "brilhar" vida afora.
Reprodução
Ilustração de Felipe Cohen para o conto "A Vela de Sebo", do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen
Ilustração de Felipe Cohen para o conto "A Vela de Sebo", do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen
Sim, essa era sua feição, assim ela se formara: entregara-se à vida impregnada das melhores e mais luminosas esperanças. E nela encontrara um número incrivelmente vasto de outras estranhas criaturas às quais se misturara, desejosa de aprender a conhecer a vida e, quem sabe, dessa maneira encontrar o lugar que melhor lhe correspondia.
Contudo, acreditava demais no mundo; e o mundo só se interessa por si mesmo, não quer saber de velas de sebo... Porque, incapaz de entender qual era a finalidade da vela, o mundo tratou de usá-la em proveito próprio e manuseou-a de forma errada, sem cuidado; seus dedos sujos foram manchando cada vez mais a cor imaculada da inocência, que acabou desaparecendo por completo, coberta pela imundície do mundo inteiro, com o qual a vela mantivera um contato próximo demais, ela que nunca soubera a diferença entre o sujo e o limpo... mas que mesmo assim, por dentro, continuava inocente e pura.
Os falsos amigos perceberam que eram incapazes de atingir o que havia por dentro da vela e, furiosos, descartaram-na como uma coisa inútil.
Mas a superfície externa, negra de sujeira, não deixou que os bons entrassem --os bons ficaram com medo de se contaminar com aquele pretume, não quiseram ficar manchados-- e por isso guardaram distância.
E a pobre vela de sebo ficou sozinha e abandonada, sem saber o que fazer. Sentia-se desprezada pelos bons; agora entendia que não passara de um instrumento para que os maus fossem mais fundo em sua maldade; sentiu-se, com isso, tremendamente infeliz, vendo que não dedicara a vida a nada de útil, talvez até tivesse conspurcado o que havia de melhor ao seu redor --era incapaz de compreender para que ou para onde afinal se dirigia, ou por que razão vivia neste mundo-- e estragado a si mesma e aos outros.
Cada vez mais e com maior profundidade ela refletia, mas quanto mais pensava, maior era seu abatimento, pois era incapaz de encontrar alguma coisa boa, algum sentido autêntico para sua existência --ou de divisar a meta que lhe fora destinada ao nascer. --Era como se aquela camada negra também tivesse coberto seus olhos.
Foi então que ela encontrou uma chamazinha, um pavio; ele conhecia a vela de sebo melhor do que ela própria; aquele pavio percebia as coisas com enorme clareza --inclusive através da camada externa-- e, lá dentro, encontrou uma grande bondade; sendo assim, aproximou-se dela; luminosas esperanças despertaram na vela; que se acendeu --e o coração, dentro dela, derreteu-se.
A chama explodiu, como uma tocha de júbilo num matrimônio abençoado, e tudo ao redor se iluminou e ficou claro; desvendando os caminhos para os que a levavam, seus amigos de verdade --que agora também buscavam a verdade guiados pelo clarão da vela.
Contudo, o vigor do corpo também era suficiente para nutrir e carregar a chama ardente. --Gotas e mais gotas, como sementes de uma nova vida, escorreram ao longo da vela e recobriram com sua substância --a sujeira passada.
Elas não eram apenas a matéria daquele matrimônio mas também seu enlace espiritual.
Agora a vela de sebo encontrara o lugar que lhe cabia na vida --mostrando que era uma vela de verdade, que brilhou durante muito tempo para sua própria alegria e a das outras criaturas...

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Lygia Bojunga



   "Creio que muita água ainda vai passar antes que o livro físico desapareça", diz Lygia


Lygia Bojunga se consagrou como autora de alguns dos livros mais conhecidos daliteratura infanto-juvenil brasileira. "Os Colegas", "Angélica" e "A Bolsa Amarela" são algumas das obras que já completaram algumas décadas de existência, mas continuam presentes nas estantes das crianças. 

Nascida em Pelotas (RS) em 1932, Lygia levou quase 40 anos para conseguir viver apenas de seu talento literário. Durante esse tempo, atuou em peças de teatro, trabalhou em rádio e televisão e chegou a fundar uma escola para crianças pobres do interior, que dirigiu por cinco anos. Mas foi como escritora que Lygia alcançou um enorme prestígio. Em 1982, recebeu o prêmio Hans Christian Andersen, e em 2004 o prêmio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award), os dois mais importantes prêmios internacionais da literatura infanto-juvenil.


Atualmente, a escritora cuida dos negócios de sua própria editora - "Casa Lygia Bojunga" - que publica exclusivamente seus livros. Também é responsável pela Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, sediada no Rio de Janeiro e que desde 2004 desenvolve projetos socioeducativos voltados para o estímulo da leitura de crianças e jovens.



Lygia Bojunga: Meu gosto pela escrita foi resultado da minha paixão pela leitura. Paixão que começou em criança, quando penetrei no Sítio do Pica-Pau Amarelo e devorei todos os livros que o Monteiro Lobato situou naquele sítio. Comecei, então, a escrever umas historinhas e, depois, brincar de representar as histórias, com meus amigos. Brincadeira que - como adolescente - repetia na escola. Nos meus vinte anos, fui desenvolvendo uma familiaridade crescente com a forma dialogada de escrever. 


Tudo que eu escrevia era em diálogo. E comecei, então, a escrever profissionalmente. Primeiro para o Rádio, depois para a Televisão. Até que, um dia, me perguntei: mas se meu companheiro inseparável é o LIVRO, por que não tentar alargar esse relacionamento e enveredar pela literatura? Enveredei. E, se optei, inicialmente, por uma literatura voltada para crianças foi por achar - talvez erradamente - que a transição do diálogo para a narrativa me seria menos difícil se eu usasse uma linguagem simples, coloquial, ao alcance de qualquer criança. Pensei que, desse modo, o gênero narrado ficaria mais ao meu alcance, também.

Como a imaginação é capaz de ajudar as crianças a refletirem sobre seus problemas e o que captam do mundo?
Lygia Bojunga: Já disse (e escrevi) outras vezes que, a não ser em situações extremas, tipo acidentes, doenças graves, morte, quem se habituou a fazer uso desse nosso departamento chamado imaginação se salva sempre; e, na minha opinião, não existe nada que desenvolva tanto a imaginação como o LIVRO. A literatura funciona para nós como um espelho. Quanto mais nos olhamos nele, mais vamos captando revelações sobre nós mesmos e, consequentemente, sobre nossa postura face ao mundo.

Confira a matéria na íntegra: http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/lygia-bojunga-681657.shtml

Sinopse - Tchau - Lygia Bojunga 
Único livro de contos da autora, Tchau reúne quatro narrativas densas, onde - no estilo habitual que já se tornou sua marca - Lygia transita com inteira liberdade entre o realismo e o fantástico.Nele, ela fala de paixão, de amizade, de ciúme e da necessidade de criar.Tchau ganhou o prêmio O Melhor Para o Jovem - FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), foi incluído na seleção dos melhores livros da Biblioteca Internacional da Juventude - Munique, Alemanha, e foi parte integrante da obra de Lygia que recebeu o prêmio Hans Cristian Andersen e o prêmio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award).













Este texto fora discutido em sala e nota-se que o mesmo é recomendado para crianças, às mesmas devem aflorar e se conhecer emocionalmente e este texto permite isto a ela. Por se tratar da visão que esta criança tem da separação de seus pais, apresenta assim, segundo alguns estudos da psicanálise, um melhor entendimento para outra criança ao lê-lo, pois vivenciará o drama de forma simbólica e não real e se a mesmo já passou por este tipo de situação familiar, poderá ressignificar sua experiência. Outros textos que podem ser lidos de forma mais fácil, são aqueles que seus personagem principais são animais, já que a criança não se enxergará de forma direta com o animal, por isso vemos tantos contos e filmes com esta montagem, exemplo : Procurando Nemo (filme) ou O Patinho Feio (conto infantil).


Outro ponto importante se dá através da mediação, esta deve ser feita com muito cuidado. Uma forma negativa desta mediação se dá através do apagamento, onde o mediador molda o que lê para buscar um objetivo já planejado. Como já fora visto em um post anterior, o medicador é aquele que mostra ao novo leitor um novo universo cheio de possibilidades e o permite investiga-las, é aquele que estimula a leitura e dá novos referenciais. 

Referencia: 
NUNES, L. B. Tchau. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2004.  

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Resumo da entrevista com Vitor Quelhas.


O conto de fadas não é algo imposto, se permite recriar, problematizar, nele todos os temas podem ser apresentados, trabalhados e permissivos a interpretações diversas. Um conto pode ser lido por várias pessoas e interpretado de diversas maneiras, cada leitor tem seu modo de enxergar-se na história de buscar soluções, pois é isso que se propõe o conto de fadas, mostrar problemáticas e encontrar junto ao leitor soluções - não é algo posto, mas construído e reconstruído diversas vezes.
 As crianças devem lê-los conscientes a viajar por um mundo cheio de lacunas a serem preenchidos por seus próprios pensamentos.  Os temas abordados, como já fora mencionado, são diversos, pois se deve trabalhar o cotidiano vivenciado pelos leitores, ou seja, temas como a morte, o abandono ou o nascimento e a criação, estão dispostos a serem lidos.
É obvio que muitos lerão e criarão certo temor, mas isso não se pode servir como um empecilho e sim um acréscimo às experiências pessoais e o desenvolvimento de emoções, já que o mesmo em determinada fase infantil se faz primordial.
A criança tem que encontrar sentido no que lê, assim fazendo parte da sua vivência, lembrando que os contos de fadas revelam muito sobre seu leitor, suas reações e os significados encontrados pelo mesmo, aparecendo assim, o interesse da psicanalise nestas interpretações, de uma realidade paradoxal presente em nossos sonhos.
O público destes contos não são apenas crianças, mas adultos que também se interessam por este universo místico, onde suas experiências e sonhos tomam forma, cores e formatações. Deste modo, quando um adulto lê e se entrega ao conto, ele pode transmitir esta magia para uma criança, ler friamente um livro qualquer não cria um ambiente propicio a sonhos, mas a modelos frios e inertes. Os contos primordialmente, devem ser ditos, contados oralmente, com prazer, interpretação e emoção.
Quando uma criança vivencia o conto de fadas, todo seu corpo responde a isto, sua respiração muda, sua mente borbulha, seus olhos atentos e brilhantes. Ela se vê em qualquer que seja o personagem, mesmo secundário, se encanta, permite-se sonhar, permite-se até criar uma história depois da história, dê a ela um livro só de figuras e ouvirá diálogos e contos inéditos, fruto de sua imaginação fértil e produtiva, que dará um sujeito social critico e que busca problematizar tudo que é posto, que cria e recria a si e a sua realidade. Um sujeito imerso em seu próprio conto de fadas.

Entrevista com Vítor Quelhas em Vivendo um Conto de Fadas


O que são contos de fadas?
Foram os franceses, no século XVII, a criar o termo conte de fée, ou conto de fadas, que depois vem a dar em inglês o fairy tale. Antes disso, o conto de fadas não existia propriamente. Havia contos de tradição oral, sobretudo no Centro da Europa, que iam buscar, de forma muito dispersa, elementos ao mito, às grandes tradições religiosas, a simbólicas de vários tipos, à literatura antiga, à medieval. São contos que evoluem de uma série de elementos sincréticos, que se vão desenvolvendo e constituindo em narrativas. A partir do século XVII emergiu uma tradição erudita do conto de fadas, que ganha força com contadores de histórias como Charles Perrault, que a recolhem a partir da tradição oral e a reescrevem. O conto de fadas moderno, tal como o conhecemos, tem origem nessa tradição erudita, promovida por pessoas como Perrault, os Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen. Deste modo, passou a ser uma forma de cultura elaborada e deixou de ser uma mera literatura oral cultivada e transmitida sobretudo pelas populações rurais, tornando-se uma cultura de salão.
E eram lidos ou contados?
Nessa altura passam também a ser escritos, o que se deve à invenção da imprensa, no século XV, e à crescente alfabetização. As classes elevadas aprendem a ler e tornam-se capazes de reproduzir, porque se tornou moda, as narrativas orais por escrito.
Como caracteriza o conto?
Nos contos de tradição oral europeia há dois tipos de componentes: um, puramente oral, que tem a ver com eventos locais que são fantasiados e contados como histórias fabulosas, de pasmar. E outro, com as narrativas populares, que aglutinaram imaginários religiosos e simbólicos, cristãos e pré-cristãos, mitos provenientes da Antiguidade, enraizados na mitologia céltica e greco-romana, que se constituem como narrativas autónomas, não necessariamente ligadas ao que acontece, ao que se conta de forma efabulada. Interessante na tradição estritamente popular do conto é a falta do elemento feérico, encantatório. A tradição oral popular portuguesa, por exemplo, é constituída por narrativas curtas, muitas vezes cruas, pragmáticas, despojadas do elemento feérico, profundamente mágico.
Sem fadas, duendes, magias?
Nada como nos contos de Grimm ou de Andersen. Têm personagens de tipo diferente, quase prosaico, que têm muito a ver com o universo do conto português. Coisas espantosas, como as almas penadas, a bruxa, a moira, o lobisomem, o olharapo, típicas do imaginário popular português, mas que não são exactamente a bruxa, a fada, os animais de que falam os contos feéricos. São mais personificações das fantasias e medos da aldeia.
Isso é específico de cada cultura ou há elementos comuns nas diversas culturas?
A Índia, a China, assim como as culturas africanas e latino-americanas, têm contos populares espantosos. Aí, o conteúdo simbólico, arquetípico, é muito forte, porque esses contos normalmente são versões populares de problemáticas de carácter religioso, iniciático e filosófico que em parte se encontram também nos Grimm.
As que sempre ocuparam a cabeça dos homens…
De onde viemos, quem somos, para onde vamos. Há toda uma tradição popular que veicula esse questionamento universal. E depois há a que veicula apenas os fantasmas e as fantasias pessoais, os medos e superstições de uma comunidade local. São coisas diferentes. Esta última é feita de efabulações, que tendem a gerir tabus, interditos, morais estreitas, o que a aproxima muito da fábula.
Há diferença entre a fábula e o conto de fadas?
A fábula tem uma «moral da história», o conto de fadas não. Os contos de fadas propõem uma descoberta ética, e por isso não aparece a problemática da formiga e da cigarra…
A fábula também vem da tradição oral?
Vem. A tradição oral tipicamente portuguesa tem muito de fábula: quer ser educativa, dizer às pessoas o que elas devem ou não fazer, tende a veicular uma moral, um comportamento social. Ao passo que o conto de fadas não, subverte aquilo que se chama não somente a cultura estabelecida mas a ordem racional estabelecida. Quando se começa por «Era uma vez» coloca-‑se a criança no domínio do intemporal, do não-tempo, onde tudo é possível, a Terra do Nunca onde Peter Pan gostava de levar os amigos e mostrar-lhes uma nova dimensão das coisas, outra ordem de possibilidades…
De onde ele nunca queria sair…
Porque é tão mágica, tão fabulosa, tão maravilhosa, encanta tanto, que remete para uma realidade paralela. Essa realidade paralela é, no fundo, o outro lado das coisas, a realidade criativa e paradoxal dos nossos sonhos – por isso é que a psicanálise se interessou pelo conto…
Os contos são para crianças ou para adultos?As narrativas populares não são especificamente para crianças, embora tenham um elemento de sedução muito forte para elas – que estão muito mais próximas deste imaginário, do inconsciente arquetípico, da imaginação activa. E os adultos também adoram essas narrativas precisamente porque os introduzem nesse elemento que tende a ser esquecido pelo adulto com a socialização, a aprendizagem excessivamente dirigida e a extrema especialização social – no fundo, a racionalização do significado das suas relações sociais, de uma imagem do mundo unívoca, da forma como sente, como pensa. Por isso, o acesso ao arquetípico só se faz através do sonho ou da experiência psicótica – o que neste caso é uma patologia.
Precisamos de magia?
O feérico dos contos tem a ver com a imaginação e a criatividade. Não basta imaginar que uma coisa pode ser diferente. Tenho de ter a convicção de que posso introduzir nos acontecimentos essa diferença. É isso que o conto de fadas nos traz. Mais, nestes contos existe uma dimensão ética, um entendimento em liberdade. Impedem que sejamos transformados apenas em instrumentos institucionais, preserva o espaço do indivíduo. São importantes para mantermos a chama do inconformismo, da inquietação, e isso é fundamental para uma cidadania sadia que, creio eu, começa com os contos de fadas, com o maravilhoso, com a capacidade de dizer que as coisas podem ser diferentes e que nem sempre são o que parecem.
Bettelheim, na Psicanálise dos Contos de Fadas, fala da função estruturante do conto, da noção de bem e de mal em relação às crianças. O Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau, a conotação sexual que as personagens podem ter…
No caso da psicanálise dos contos de fadas existem duas tendências: a de tipo Bruno Bettelheim, que faz a análise dos contos pelo seu lado melhor – psicológico, antropológico, sociológico –, e que vai buscar a psicanálise não freudiana clássica do género «o Capuchinho Vermelho tinha um capuchinho vermelho porque representa a primeira menstruação da menina, e o lobo come-a». E a chamada psicanálise tradicional dos contos de fadas que é fortemente freudiana, altamente redutora, onde tudo é remetido para uma simbólica libidinal. Para esta, os contos de fadas são metamorfoses do imaginário da libido. Já Bettelheim vai mais longe. Ele abre a análise dos contos à dimensão do sonho, ao inconsciente, ao símbolo, no sentido antropológico das várias escolas de psicanálise, nomeadamente junguianas. É um universo respirável. Quando se lê a análise dos contos de fadas de Bettelheim aprendemos bastante sobre nós. Mas se apenas se lê as análises redutoras do conto de fadas em termos excessivamente freudianos (de matrizes redutoras) não se vai longe no auto-conhecimento.
E matamos o conto…
Completamente. Perdemos o direito à magia, no sentido imaginativo e criativo do termo. Há um elemento importante no conto: a relação entre emoções positivas e negativas. A criança, quando se conta um conto de fadas – esses onde ainda existe emoção primordial e crueldade primitiva, como é o caso dos de Perrault ou dos dos Irmãos Grimm –, identifica-se com o herói ou com a heroína, seja rapaz ou rapariga. Isso joga com a ambivalência sexual da criança, com a capacidade de lidar com o feminino e o masculino dentro de si. E há outro aspecto: o conto cria um cenário, a história, em que o herói se movimenta, e a criança, ao identificar-se com o herói, evolui nessa proposta de viagem, nessa demanda…
É uma viagem iniciática…
É. O herói vai passar por determinadas aventuras, onde se confronta com o seu próprio eu e não com a moral pré-estabelecida. Quando a criança pergunta «O lobo é mau?», o contador deve sempre dizer: «O que é que tu achas?», deixando-lhe a liberdade de descobrir. Muitas vezes a criança identifica-se com o lobo e quer saber por si própria como é e por que mataram o lobo.
Houve tentativas de os tornar «politicamente correctos».
Isso destrói o conto de fadas, porque o importante é que o herói – o eu da criança – se movimente numa determinada realidade que lhe é dada pelo conto, e que tem semelhanças com a realização dos nossos sonhos. Quando sonhamos somos heróis do mundo onírico, fazemos um determinado percurso e é aí que o risco e o inconfessável vêm à superfície – e temos de lidar com ele. Quando se conta um conto de fadas, a narrativa provoca efeitos na criança. A tensão aumenta, e depois segue-se uma solução e a criança experimenta o alívio, por exemplo. Quando uma criança ouve com atenção o verdadeiro conto de fadas, tudo nela acompanha o conto: a acuidade neuro-sensorial, o ritmo cardíaco, a respiração. Nesse sentido, o conto desempenha uma função muito estimulante e integradora. As narrativas confrontam a criança com dualidades: o ódio e a compaixão, a culpa e o perdão, a tristeza e a alegria, o medo e a coragem, a confusão e a lucidez, a mentira e a verdade. Mas o conto de fadas não diz o que é mentira ou verdade, é a criança que tem de lidar livremente com esse material.
É preciso saber contar.
Os adultos não têm histórias relevantes para contar às crianças, não sabem contos que as seduzam, que lidem com o imaginário delas. Um conto de fadas nunca deveria ser lido. O adulto deve aprender o conto e depois contá-lo, de viva voz.
O que os torna tão importantes?
É saber que dentro de mim estão todas as personagens dos contos de fadas e que eu próprio sou um herói de mil faces, sempre em demanda de significado, superação, maturidade. É este herói em nós que está por detrás das nossas decisões, afectos, sonhos. A criança começa muito cedo a lidar com as fantasias e as emoções ligadas ao desejo. A força estruturante de um conto de fadas é o desejo de o herói levar um certo percurso até ao fim. Passar por desafios que tem de superar, como o medo – veja João e o Pé de Feijão: o gigante que está nas nuvens, o João vai lá e rouba ao gigante uma série de objectos simbólicos. A força do gigante representa essa força primordial do desejo, muitas vezes de uma tremenda crueldade, a força do instinto de posse.
A Bela e o Monstro… é quase óbvio.
Exactamente. Mas a criança é convidada a lidar com isso. E com o universo das metamorfoses, quando a criança é levada a tratar com afecto e compaixão uma criatura disforme. Em A Bela e o Monstro, ela nunca supôs que por baixo do monstro de aparência terrível havia um príncipe encantado. E percebe que se eu não conheço o outro, se não dou tempo a que o outro se transforme perante mim, então não posso ter uma relação correcta com ele. Não posso julgar as coisas pela sua aparência. Lidamos com uma coisa que depois se revela como sendo outra. E há, sobretudo, a capacidade de amar e de respeitar a diferença, a compreensão de que o afecto e a compaixão provocam metamorfoses na relação com o outro.
Os contos podem ser violentos para uma criança.
Claro que sim. Há coisa mais violenta do que o caçador apanhar o lobo, abrir-lhe a barriga, enchê-la de pedras e depois atirá-lo para o rio? Mas não se deve caramelizar os contos: omitir a crueldade, o amor, a morte. São experiências fundamentais para a criança. Aprender a lidar com a morte como impermanência, com o fim das coisas, perceber que a realidade muda continuamente e que é possível lidar com isso.
Há também a sereiazinha, que troca a voz pelas pernas e cada passo que dá em direcção ao príncipe é extremamente doloroso.
Esse é o preço a pagar. O crescimento, a aquisição das faculdades de inteligência, de emoção, de actuação, de acção pressupõem transformações. Alguma coisa tem de ser deixada para trás, é o crescimento dialéctico no conto de fadas. Não podemos continuar a ser Peter Pans e há coisas que temos mesmo de rejeitar para crescer. Os contos de fadas têm a ver com todos esses desafios, tratam arquétipos do crescimento: o medo, o confronto, a superação. O herói da história tem de arranjar soluções para tudo e a criança descobre possibilidades de enfrentar o seu medo como uma coisa natural.
Está a perder-se a tradição dos contos de fadas?
Hoje prefere pôr-se a criança em frente à televisão do que contar-lhe uma história. E os adultos também têm uma relação estranha com o tempo. Acho que a maior parte dos adultos tem um problema complicado que é não saber lidar com o seu próprio crescimento. Eu, como toda a gente, faço montes de coisas. Mas uma coisa é certa: tenho tempo para contar contos de fadas ou para escutar alguém que diga que precisa de falar comigo. Sou capaz de rupturas para isso. Quando abdicamos de imprevistos, de espaços novos na nossa vida, começamos a caminhar para a morte. Porque não conseguimos introduzir vectores de criatividade, de novidade nas nossas vidas. O conto de fadas convence-nos de que somos capazes de criar essas rupturas.
Temos mesmo de ter tempo para os contos.
E é importante dizer aos pais: «Guardem o livro. Aprendam a história e contem-na». É muito mais sedutor para uma criança ver a disponibilidade de alguém. Bettelheim fala muito nisso: a disponibilidade do adulto para contar uma história a uma criança é também uma disponibilidade para si próprio, ou seja, há uma interacção de disponibilidade entre a disponibilidade da criança e a do adulto e isso é muito importante. Habituarmo-nos a que há momentos mágicos em que toda a disponibilidade pode ser restabelecida, a interacção do contar em que a criança e o adulto podem encontrar ao mesmo nível essa disponibilidade primordial de cada um de nós. É esse momento feérico em que tudo é possível, em que as coisas mais abstrusas, mais medonhas, mais terríveis, podem encontrar solução. Numa época em que estamos a ser submersos pelo pessimismo face à tragédia do mundo, isso ainda é mais relevante.
Essa tragédia sempre existiu…Mas hoje entra-nos pela casa dentro. Devemos conduzir a criança para esse mundo de disponibilidade e dizer-lhe: «Será que a história do mundo pode ser contada de outra maneira? Será que a realidade pode ser reinventada?» Não tanto do ponto de vista da economia do problema, mas das soluções. O conto de fadas remete para soluções e não para problemas sem saída. Às crianças não lhes interessa o problema, mas a solução.
O que sugere aos pais?
É mais interessante fazer com que a criança recrie a narrativa do que darmos-lhe isso como uma coisa materialmente estática – caso do livro que está ilustrado. As crianças devem imaginar a sua bruxa, o seu gigante, o seu lobo, a sua noite, o seu dia, a sua lua, os seus medos, a sua coragem – cada criança viverá isso de maneira específica. Mostrar a um grupo «estão a ver como é?» é empobrecer essas crianças, é contribuir para as tornar cidadãos obtusos, porque foram habituadas a ter apenas uma imagem das coisas dadas, tornam-se seres conformados. Deste modo não são capazes de ter a sua versão dos acontecimentos, não são habituados a essa diversidade de reacções perante a mesma coisa, e ao respeito que as pessoas merecem por sentirem de maneira diferente e assim potenciarem soluções diferentes para a mesma coisa.
Acredita em fadas?
Daquelas fadinhas tipo Sininho, claro que não. Mas acredito que os nossos sonhos são povoados por seres fantásticos – pois há em nós elementos de carácter psicológico e emocional inconsciente e arquetípico, toda uma simbólica que acaba por se reflectir, de forma viva, nas nossas relações com o mundo. Atrás de cada objecto experimentado por nós, por mais inanimado que seja, há, de certa forma, uma consciência viva. O universo em que se vive somos nós que o fazemos, metamorfoseamos uma realidade que aparentemente é estática e animamo-la com o nosso imaginário. E o que é que acontece? Uma coisa é eu olhar para uma porta que é um objecto inanimado. Outra é sonhar com uma porta que se abre e dá acesso a um elemento irracional e simbólico: a porta que me leva para um outro mundo, para uma realidade diferente. Há elementos de carácter mágico-religioso nos nossos sonhos, que correspondem um pouco a essas portas que se abrem no conto de fadas, a esses seres pequeninos que servem de guias nas nossas aventuras.


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